SUSTENTABILIDADE

Economia que vem do céu

Estudo conduzido por engenheiros eletricistas em 95% das organizações militares do Comando da Aeronáutica indica que geração de energia sustentável pode reduzir o valor das faturas de energia elétrica
Publicado: 16/04/2017 08:00
Imprimir
Fonte: Agência Força Aérea, por Ten Jussara Peccini

É em tempos de orçamento apertado que surgem ideias para tornar mais eficiente a resolução de desafios. No caso do Comando da Aeronáutica, o período deu um novo impulso na busca por fontes de energia renováveis que permitam colaborar com a preservação do meio ambiente e contribuir com a redução de custos de operação, como as temidas faturas de energia elétrica.

“Temos áreas propícias para instalar e queremos utilizar mais o recurso da usina de energia solar nas nossas unidades. Os norte-americanos, por exemplo, utilizam muito isso”, exemplificou o Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Luiz Rossato, na ocasião em que discutiu a iniciativa de apostar em energias renováveis com o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho. Em 2016, a Força Aérea dos Estados Unidos dispunha de 18 usinas solares, contabilizando aquelas que estão em operação e aquelas em desenvolvimento, distribuídas por todo o País.

A preocupação da Força Aérea Brasileira, além de contribuir com a redução do impacto ambiental das suas ações, é reduzir os custos operacionais. Os motores de partida usados para energizar aeronaves e os radares de controle de tráfego aéreo, que funcionam ininterruptamente, são exemplos de equipamentos com alto consumo de energia. A conta anual de uma unidade movimentada como uma base aérea pode chegar a R$ 3 milhões.

A iniciativa também pode colocar a instituição como pioneira no uso de energias renováveis para compor sua matriz energética. “Não tenho dúvida de que o projeto da Aeronáutica será o primeiro a sair”, afirmou o ministro de Minas e Energia. “E que sirva de exemplo, não só para as outras Forças Armadas, mas também universidades, institutos federais, enfim, vários outros órgãos pelo País afora”, destacou o chefe da pasta.

O estudo, realizado a pedido do Comandante da Aeronáutica, foi conduzido por engenheiros da Ala 3, localizada em Canoas (RS), e reuniu dados de consumo anual e tarifas de energia elétrica de 95% das unidades da Força Aérea Brasileira. Os profissionais da unidade já tinham se debruçado sobre o assunto desde junho de 2015 para encontrar alternativas que ajudassem a reduzir a conta de energia daquela organização. A expertise foi usada, então, visando identificar possíveis caminhos para as demais unidades. Por isso, a pesquisa também indicou áreas disponíveis que poderiam receber estrutura para parques geradores de energia solar.

Os dados integram uma minuta de diretriz enviada ao Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER) com o objetivo de fomentar uma Comissão de Implantação de Sistemas de Geração de Energia no âmbito do Comando da Aeronáutica. Entre as funções do grupo a ser formado estariam a de elaborar uma nova política ambiental, propondo a redução do custo com energia por meio da readequação das instalações; a realização de investimentos em eficiência energética; a conscientização do efetivo e, fundamentalmente, a busca e avaliação de fontes de energia de baixo custo, dando ênfase àquelas oriundas de fontes alternativas, renováveis e não poluentes.

A necessidade de investir nessa área é fundamental. A maior parte das unidades da FAB se enquadram como grandes consumidoras. Nesses casos, a fatura é diferente da residencial. O valor é calculado considerando três fatores: a demanda contratada (uma quantidade mensal previamente estabelecida entre cliente e concessionária de energia); a energia em ponta (que compreende o horário de pico de consumo - entre 18h e 21h -, quando o valor da tarifa pode chegar a três vezes mais que a geral); e fora de ponta (restante do dia).

“A demanda contratada pode ser comparada aos créditos do celular. Você estabelece uma cota mensal. Se não usar tudo, sobra. Se ultrapassar, o cliente vai desembolsar um extra para pagar o que exceder”, explica o Tenente Engenheiro Gustavo Cruz Campos, da equipe que realizou o estudo.

Entre as conclusões, o estudo indicou dois fatores que são determinantes para a escolha dos locais. “O local onde mais vale a pena instalar uma usina é onde o valor da tarifa de energia é maior e a taxa de insolação é mais alta. Nesse perfil se encaixam os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e o Distrito Federal, por causa do valor da tarifa, e nos estados do Nordeste por ser a taxa com maior insolação ao longo do ano”, explica o engenheiro.

Energia solar – Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) acessados no início de janeiro mostram que o Brasil dispõe de 42 usinas que utilizam radiação solar. Elas respondem por 23.008 KW de capacidade de geração. Na matriz de energia, indicam o percentual de 0,0144% do total.

O valor é extremamente baixo quando considerado o mapa de insolação brasileiro. Segundo informação do Ministério de Minas e Energia, a irradiação média anual brasileira varia entre 1.200 e 2.400 KWh/m²/ano, bem acima da média da Europa, que figura entre os maiores exploradores desse recurso de energia renovável. Na Alemanha, por exemplo, segundo um estudo apresentado pelo professor Ricardo Rüther, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a região mais ensolarada possui radiação solar 40% menor que a região menos ensolarada do Brasil. Ainda assim, 10% da energia gerada naquele país são provenientes de placas fotovoltaicas.

O ministro Fernando Coelho acredita que, nos próximos anos, o uso de energia solar no Brasil vai se expandir em “uma velocidade muito rápida”. Uma das razões é o compromisso que o país assumiu na COP 21 (acordo internacional que busca manter o aquecimento global abaixo dos 2°C), de aumentar as fontes renováveis de energia, além da hídrica.

Os estudos do Plano Nacional de Energia (PNE 2050), em elaboração pela Empresa de Pesquisa Energética, também são otimistas. A estimativa é que 18% dos domicílios em 2050 contarão com geração fotovoltaica (13% do consumo residencial). Já a projeção da Agência Internacional de Energia (IEA), é de que, em um cenário moderado, a energia solar poderia responder por cerca de 11% da oferta mundial de energia elétrica em 2050.

Primeiros projetos - Um dos processos mais usuais de aproveitamento da luz solar para geração de eletricidade é o uso de painéis fotovoltaicos, que convertem a luz do sol em energia elétrica. É nessa opção que o Comando da Aeronáutica aposta. Os primeiros projetos desenvolvidos para geração de energia preveem a construção de usinas fotovoltaicas (parques solares) em áreas da FAB para suprir o consumo de energia elétrica em unidades no Rio Grande do Sul e em Anápolis (GO). A ideia envolve duas modalidades de contrato, permuta e compensação, feitas com a iniciativa privada.

Na área da Ala 3, em Canoas (RS), em um espaço de 20 hectares, a projeção é gerar 16 GWh / ano. A quantidade seria suficiente para abastecer 5 mil residências do município, por exemplo.

A região Sul não é campeã na taxa de incidência solar média. Fica abaixo do Nordeste. Porém, está acima da região Amazônica. Segundo o Major Engenheiro Rodrigo Prado dos Santos, a incidência solar anual média é determinada basicamente por dois fatores: a proximidade com a linha do Equador e a nebulosidade da região. “A taxa é superior às taxas de insolação na Europa e boa parte dos EUA, onde esse tipo de sistema de geração de energia é amplamente empregado”, compara.

A expectativa de redução na conta de energia é entre 10% e 15%, ou seja, aproximadamente R$ 180 mil por ano ou R$ 15 mil por mês. A fatura média mensal passará de R$ 122 mil para R$ 107 mil.

Para a Base Aérea de Anápolis, o projeto prevê que, com o mínimo de 3,3 GWh/ano, uma usina de 1,6 MWp já pode suprir todo o consumo da unidade. “Caso sejam ofertadas possibilidades de usinas de 1,8 ou 2 MWp, os créditos excedentes gerados poderão ser transferidos para as outras unidades da FAB atendidas pela mesma concessionária de energia (CELG), como por exemplo, a Prefeitura de Aeronáutica de Anápolis”, explica o major.

Desafios – Os técnicos explicam que, para a viabilidade da implantação de uma usina de energia solar, deve-se realizar um amplo estudo multidisciplinar. Os dados constantes nas faturas de energia permitem dimensionar a usina necessária para suprir a energia de uma determinada instalação consumidora.

“Uma das possibilidades é dimensionar a usina para que a energia solar  transformada em energia elétrica corresponda ao total anual de kWh consumidos da rede da concessionária. Isso permite a maior economia proporcionada por uma única usina. Levando-se em conta a taxa de insolação da localidade e o rendimento energético dos equipamentos da usina, determina-se a potência ideal”, afirma o Major Prado.

Um dos desafios para criação de usina de energia solar é estabelecer uma localização na unidade. A área deve possuir relevo adequado e apresentar características e dimensões que atendam não apenas à demanda de energia pretendida e a ser explorada, mas também que não causem grandes impactos ambientais.

“Para se ter uma ideia, uma usina que atende somente à energia da Ala 3 ocupa uma área de aproximadamente quatro hectares. Se for um quadrado, seria de 200m X 200m”, compara.

Na indisponibilidade de uma área grande, os equipamentos fotovoltaicos também podem ser instalados sobre os telhados das edificações.

Leia esta e outras reportagens na revista Aerovisão: