NOTAER

Na FAB e na corrida, a superação

Sargento Juliana descobriu, ao longo dos 30 anos, que força de vontade era o seu combustível para vencer na vida
Publicado: 13/01/2016 08:30
Imprimir
Fonte: Agência Força Aérea

  Superar limites sempre foi a realidade de Juliana Paula de Souza, 30 anos. No povoado de Zé Simão, município de Senhora dos Remédios no interior de Minas Gerais, ela cursou até a quarta série do ensino fundamental. Filha única de um casal de agricultores, enfrentou o desafio de estudar sem apoio. “Minha vontade de mudar o rumo da minha vida era tão grande que fui escondida fazer minha matrícula [na quinta série do ensino fundamental] na cidade”, relembra.

Para que a filha seguisse os estudos, o pai, Cícero, buscou estadia para a menina na casa de desconhecidos em troca de serviços domésticos. A rotina cansativa de limpar uma casa se repetiu mais de cinco vezes com patroas diferentes. “Tinha uma mulher que trancava os potes de biscoitos para eu não tomar café da manhã”, relata. Juliana ia para a escola em jejum. 

Com as negativas de outras famílias da cidade, Juliana voltou para a casa dos pais. Mesmo assim, continuou frequentando a escola. Agora, todos os dias caminhava cinco quilômetros para pegar condução e outros cinco para voltar. A rotina foi assim até surgir o convite de uma antiga conhecida da família, que morava na cidade, para morar com ela. O sonho de Juliana de terminar o Ensino Fundamental ainda enfrentaria mais um desafio: ficou distante do convívio dos pais.

A falta de dinheiro também pesava. Ela, então, pediu ajuda a um tio que morava no Rio de Janeiro. Turíbio Patrocínio ajudava a manter financeiramente a sobrinha. Aos 15 anos, Juliana concluiu o Ensino Fundamental e lembra da formatura, que contou com a presença apenas do pai. “Foi um dia muito feliz, meu pai ficou lendo meu diploma”, disse.

Era hora de buscar novas oportunidades. Juliana seguiu para Barbacena (MG), onde moraria na casa de amigos do tio Turíbio. Em 2001, sofreu a perda da mãe e, em meio a tantas lutas, conseguiu concluir o Ensino Médio.

Depois, se mudou para o Rio de Janeiro para morar com o tio. Foi ele quem pagou o curso preparatório para a Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR). “Ele achava melhor eu fazer um curso de manicure ou cabeleireira. Insisti e ele pagou mesmo não acreditando. Passei na minha segunda tentativa”, orgulha-se.

Nasce uma corredora - Na EEAR, em Guaratinguetá (SP), ela foi designada para o Curso Básico em Eletricidade e Instrumentos de Aeronaves (BEI). No último ano, não foi bem em Eletrônica e precisou recuperar a média no teste físico. “Cheguei na frente de quase todo o meu esquadrão”, comemora. 

Após a formatura, foi designada para o Esquadrão Harpia (7º/8º GAV), em Manaus (AM), e tornou-se a primeira mulher do Brasil a fazer o curso completo do helicóptero Black Hawk. Mas já guardava o sonho de correr levando o nome da FAB. “Em 2008, conquistei a medalha de prata geral numa competição militar sem nunca ter tido um treinamento profissional”, recorda.

Um sonho realizado - Em 2010, a Sargento Juliana foi transferida pela administração para a Comissão de Desportos da Aeronáutica (CDA), no Rio de Janeiro, graças aos excelentes resultados alcançados. Na época, a FAB conquistava a primeira e única militar de carreira representante da corrida de rua entre os atletas de alto rendimento.

Na primeira maratona disputada, a militar alcançou índice para representar o Brasil no Mundial Militar de Maratona, em Athenas – Grécia. Com a evolução e o acompanhamento profissional, os bons resultados melhoraram ainda mais. Em 2015, ela participou de 14 competições, subiu 12 vezes ao pódio e levou oito medalhas de ouro.

Agora, ela divide a vida  com o marido e faz visitas frequentes ao pai no interior de Minas. Seu Cícero, aos 67 anos, conta com a ajuda da filha. “Ela lutou para estudar e a vida aqui é apertada. Tenho muito orgulho de ser pai dela porque ela venceu”, conta emocionado.

Rotina puxada - Diariamente, a militar treina para levar o nome da FAB. “Não posso comer ou beber qualquer coisa, tenho horário para dormir, acordar, treino pela manhã e, às vezes, à tarde e malho toda noite”, destaca.

No ano passado, a sargento foi condecorada com a Medalha Mérito Desportivo Militar, concedida pelo Ministério da Defesa. Em abril de 2016, ela vai receber a Ordem do Mérito Judiciário Militar, destaque oferecido pelo Superior Tribunal Militar (STM). 

“Meu sonho é poder ajudar pessoas, que tinham tudo para dar errado e deram tão certo, como eu. Quero poder visitar escolas e comunidades carentes para encontrar novos talentos para corrida de rua”, finaliza.

Leia esta e outras reportagens na edição deste mês do Notaer: