INTERCÂMBIO

Oficial da FAB integra programa entre as forças aéreas do Brasil e dos EUA

Tenente-Coronel Saint-Clair trabalha em dois departamentos na Academia da Força Aérea Americana
Publicado: 04/11/2015 07:00
Imprimir
Fonte: Agência Força Aérea

Em 1996, enquanto estudava na Academia da Força Aérea (AFA), o então cadete Saint-Clair Lima da Silva visitou a Academia da Força Aérea Americana (USAFA) por uma semana. O programa de intercâmbio dos cadetes, descontinuado em 2007, entre as instituições também permitiu que uma turma norte-americana viesse ao Brasil. Foi a primeira viagem internacional de um fluminense nascido em São José do Meriti. A primeira vez que conheceu a neve e sentiu o vento frio e gelado das montanhas do Colorado.

Quase 20 anos depois, já no posto de Tenente-Coronel, o militar brasileiro voltou à instituição que forma oficiais da maior força aérea do mundo para ser instrutor. “Várias pessoas, militares e civis, quando vêem a bandeira do Brasil no meu uniforme, arriscam um "Bom dia"”, conta o militar. Ele é o primeiro oficial da Força Aérea Brasileira no programa de intercâmbio celebrado entre as duas instituições. O acordo prevê que em 2016 um oficial americano integre o corpo de cadetes da AFA. O período que cada oficial ficará no país é de até três anos. 

A carreira militar começou em 1989 ao ingressar na Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR), em Guaratinguetá (SP), para se tornar especialista em eletrônica. Quase um ano depois foi aprovado no exame para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR). Formado na AFA, optou pela Aviação de Transporte, onde comandou, entre outras aeronaves, o C-130 Hércules e o avião de apoio à Presidência da República, VC-02.

Hoje, mestre em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), com um semestre cursado em 2014 no Massachusetts Institute of Technology (MIT) na área de segurança, Saint-Clair atua em dois departamentos na USAFA. No de Ciência Política é instrutor em cursos regulares de relações internacionais da América Latina e de estudos de segurança. No departamento de Português, o oficial trabalha ao lado de dois oficiais americanos e duas professoras civis, uma delas nascida no Brasil.

Neste semestre, o militar organizou um curso sobre cultura e política brasileiras, ministrado quase que totalmente em português para alunos avançados do idioma. “Engloba a formação do estado brasileiro, a identidade cultural do nosso povo, principais diferenças entre as instituições políticas e militares dos dois países e aspectos políticos gerais”, detalha.

Adaptação – O militar brasileiro classifica a rotina na USAFA como regular e intensa. O expediente inicia às 7h30 e vai até às 16h30. Além de preparar as aulas, o Tenente-Coronel Saint-Clair trabalha para aprimorar os cursos no departamento de português e aumentar a interação com o Brasil. Hoje, é responsável pela orientação de três cadetes que pesquisam a área de relações internacionais. Também participa de debates e painéis sobre a área em outras instituições norte-americanas, como o Colorado College.

Ao chegar à USAFA, ele se reuniu a oficiais do Japão, da Alemanha, da França e da Espanha. “A academia americana tem uma longa tradição em receber oficiais de forças aéreas amigas”, afirma. O primeiro passo de todo novo instrutor é passar por um intenso período de treinamento e orientações. São cerca de 15 cursos on line ou presenciais sobre temas, como gerenciamento de emergências, antiterrorismo, exercício livre da religião, responsabilidades na segurança de documentos, segurança cibernética e relações interpessoais.

Na opinião do oficial, uma das grandes diferenças entre a cultura brasileira e norte-americana está nos hábitos alimentares. “De forma geral, eles [os americanos] não veem o almoço como uma refeição importante e um break [parada] que oferece uma oportunidade para interações sociais, como acontece no Brasil”, conta. Na USAFA, os cadetes têm refeitório exclusivo. Todos os demais militares e funcionários civis levam a refeição de casa para comer dentro do escritório. Outra opção é lanchar em redes como Subway ou Burguer King.

A preocupação inicial do militar ao ser designado para a missão se desfez logo ao chegar. Ao mudar-se com a família, perguntava-se como seria viver na cidade de Colorado Springs, no interior dos Estados Unidos. Segundo ele, a cidade foi eleita, há alguns anos, a melhor para se viver do país e transformou-se em uma das melhores surpresas. “O clima é realmente de uma cidade do interior, pois as pessoas são extremamente simpáticas e receptivas, e você pode iniciar uma animada conversa na fila do supermercado”, afirma.

Além do ambiente acolhedor, a cidade está localizada 1.800 metros acima do nível do mar, é emoldurada pela paisagem de montanhas rochosas, tem cerca de 300 dias de sol durante o ano, bons restaurantes, cafeterias, shoppings, cinemas e muitas, muitas áreas de lazer ao ar livre.

Por dentro da USAFA – De acordo com o oficial brasileiro, a USAFA é uma das maiores e mais conceituadas instituições de ensino dos Estados Unidos. Admite anualmente cerca de 1,1 mil jovens entre 17 e 23 anos. O curso tem duração de quatro anos. Os cadetes norte-americanos escolhem qual especialidade querem seguir até a metade do segundo ano. São 27 cursos que englobam, por exemplo, engenharia aeronáutica, engenharia de computação, biologia, pesquisa operacional, meteorologia, física, ciência política, ciência do comportamento, astrofísica, história e economia.

No terceiro ano, os cadetes realizam um curso básico que totaliza cerca de 13 horas de voo. “É um pré-solo, para avaliar se seguirão ou não a carreira como aviadores”, explica o Tenente-Coronel. Após formados pela USAFA, os oficiais que tenham sido selecionados e optarem pela aviação, realizarão ainda uma “triagem inicial” de voo por mais 40 dias na cidade de Pueblo, também no Colorado. Se aprovados, seguem para uma das cinco escolas da Força Aérea no país para realização de cursos avançados por um ano. É nessas escolas que o oficial será alocado a uma das “aviações”, como caça/bombardeio, lançamento aéreo/reabastecimento em voo, aeronaves multimotores e helicópteros. “Uma média de 40% dos cadetes, após graduados, vão se especializarem como aviadores”, exemplifica.

A USAFA está estruturada em quatro grandes setores: o departamento universitário, com seus 27 cursos superiores; o corpo de cadetes, responsável pela doutrina e formação militar; o esquadrão de voo, que é também responsável pelas instruções de planador e paraquedismo; e o departamento atlético, com papel de bastante relevo em função da participação dos cadetes da USAFA nos disputados torneios entre as universidades americanas. A taxa de atrito (desligamento ou saída por opção do cadete) se mantém em torno de 24% desde 2010.

Desde 1976 a USAFA admite mulheres. Atualmente, dos 4,2 mil cadetes, cerca de mil são do sexo feminino. Hoje, a USAFA é comandada pela Lieutenant-General Michelle Johnson, posto equivalente ao de Major-Brigadeiro na FAB.

A maioria dos instrutores é militar. Cerca de 35% do corpo docente são civis. Mais da metade tem título de doutor. Mestrado é a qualificação mínima exigida para qualquer instrutor.

Os cadetes devem estudar um segundo idioma. Eles podem optar entre alemão, francês, espanhol, japonês, chinês, russo, árabe e português. Atualmente, os mais de 200 que optaram pelo português estão distribuídos entre as fases básica e avançada, o que inclui cursos sobre literatura, cultura e política brasileira.

 Acompanhe esta e outras matérias no NOTAER de Novembro